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A Lenda de Agarez

Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão. Quando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o pra­to forte da sua alimentação. Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim. Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho. Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesoiro e decidiram levá-lo para a ser­ra e escondê-lo debaixo da areia. Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois. Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar dos carros, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos. Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta: – E se alguém descobre o oiro? — pergunta um. – O Diabo seja surdo — respondem os outros em coro. – E se alguma enxurrada leva a areia? — lembra outro. – Cruzes, Canhoto, vociferam os restantes. – Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto — concordaram todos. Neste comenos, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta. – Rais part’ó Diabo! — praguejou alguém. Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais. Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos. A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar na maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança. – Haviam de pagar, e com lÍngua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo. Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafoma e eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos. Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo. Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesoiro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo. Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto. Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos e destruíram­lhes todas as casas. Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido. Mas, quando começaram a revolver a areia que o cobria, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens. Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo, que deu às de Vila Diogo, sem mais aquelas, e um casal mouro que aí se fixou e recons­truiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários. Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas, uma ar te que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala. É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real. É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!


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